Cirurgias malfeitas, amputações desnecessárias e aplicação errada de remédios são alguns dos erros cometidos em hospitais e que poderiam ser evitados


Enquanto aguardava uma operação no pulso direito, Marisa Justino, de 49 anos, tomou um susto. Ela leu no quadro de avisos da equipe médica que o procedimento seria feito no braço esquerdo, que estava sadio. “Fiquei desesperada até conseguir explicar ao cirurgião que havia um erro no mural”, conta Marisa, aliviada por ter escapado de uma negligência. “Eu confiava no médico, decidi não reclamar do erro da equipe”, diz. A situação vivida por Marisa mostra que jaleco branco e diploma na parede podem não ser suficientes para garantir um atendimento livre de erros.

De cada dez pacientes atendidos em hospitais, um sofre pelo menos um evento adverso, como queda, administração incorreta de medicamentos, falha na identificação, erros em procedimentos cirúrgicos, infecções e mau uso de equipamentos. O dado é de levantamento feito pela Fiocruz. O mais alarmante é que 66,7% das ocorrências poderiam ser evitadas com medidas simples de segurança dos hospitais.

O número de médicos despreparados também impressiona. O resultado do último exame do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) aponta que 54,5% dos recém-formados em escolas médicas do Estado foram reprovados, ou seja, acertaram menos de 60% da prova. Desde 2012, a participação no exame é obrigatória para o registro profissional de médico no Cremesp. Entretanto, o registro não depende do desempenho ou da aprovação do aluno.
Nos Estados Unidos, a situação não é diferente. Após uma cirurgia, os médicos americanos esquecem um objeto estranho dentro de um paciente 39 vezes por semana. Procedimentos cirúrgicos incorretos ocorrem 20 vezes por semana no país e as operações feitas no local errado do corpo também acontecem 20 vezes a cada sete dias. Os dados são de pesquisa do Johns Hopkins Hospital publicada na revista Surgery no ano passado. Pelo menos 80 mil casos de erros cirúrgicos que “nunca deveriam ocorrer” foram registrados em hospitais americanos entre 1990 e 2010, segundo o estudo.
“É quase impossível evitar ser vítima de uma imprudência médica, pois vários fatores podem gerar isso”, analisa a advogada Célia Destri, fundadora da Associação das Vítimas de Erros Médicos (Avermes). Em 1990, Célia sofreu uma negligência durante uma cirurgia para remover um cisto no ovário. Quase 15 dias após o procedimento, ela descobriu que seu ureter havia sido cortado por engano e seus órgãos estavam boiando em urina, o que levou à perda de um rim. “Decidi ajudar as pessoas carentes, porque se eu, que era uma pessoa esclarecida, estava passando por aquele transtorno, fiquei pensando nas pessoas menos favorecidas, que sequer sabiam onde buscar seus direitos”, explica Célia. Desde 1991, ela ganhou 70% dos processos que ajuizou contra médicos.

Segundo a advogada, os problemas mais comuns que chegam à associação estão relacionados a partos, como morte da parturiente, afundamento da caixa craniana ou deslocamento da clavícula do bebê por causa do uso incorreto do fórceps e paralisia cerebral da criança. Quem se sentir prejudicado por um erro médico deve pedir a cópia do prontuário, juntar toda documentação referente ao ocorrido e consultar um advogado, como ensina Célia (veja quadro com os direitos do paciente na pág. 10).
O cirurgião norte-americano Marty Makary acredita que os pacientes podem ajudar a evitar erros médicos se tiverem mais informações e se forem cuidadosos na hora de escolher a assistência médica.

A ideia é que cada paciente deve agir como um consumidor exigente, fazendo perguntas e pesquisando como se estivesse comprando um celular ou contratando um serviço. O livro descreve certos tipos de médicos que devem ser evitados: os “perigosos”, que continuam exercendo a medicina graças ao silêncio de seus colegas; os “da Idade da Pedra”, que não se atualizam e mantêm práticas ultrapassadas; e os “obcecados pelo lucro”, que recebem “comissões” de laboratórios e empresas para prescrever determinados remédios ou implantes de aparelhos (confira nas artes espalhadas pela página algumas dicas do Dr Makary para não cair em armadilhas).
Makary alerta que os hospitais estão se tornando grandes corporações, enquanto os pacientes entram cegamente em um mercado perigoso. Um estudo da Universidade Harvard (EUA) parece comprovar essa afirmação. O levantamento com mais de 34 mil prontuários mostrou que os hospitais ganham mais dinheiro quando cometem erros durante uma cirurgia do que quando ela é um sucesso. A explicação é que o paciente com complicações precisa de mais procedimentos e tratamentos pós-cirúrgicos que encarecem a internação e, portanto, dão mais lucro. Para modificar a situação, os estudiosos de Harvard sugerem que as seguradoras não paguem os hospitais por mau atendimento, mas ofereçam bônus para cirurgias sem complicações.

A implantação de protocolos e procedimentos operacionais padrão em hospitais também ajuda a salvar vidas. É o que garante o coordenador de Educação e Diretor Institucional do Consórcio Brasileiro de Acreditação (CBA), Heleno Costa Júnior. “Os mecanismos de controle, como ferramentas de checklist ou pré-conferência são estratégias reconhecidamente válidas para minimizar a ocorrência de erros”, diz. O CBA utiliza padrões internacionais para emitir o selo de qualidade da Joint Comission International (JCI), um dos mais prestigiados na área de saúde do mundo. Apenas 21 hospitais brasileiros têm o certificado. 
Para diminuir as falhas em hospitais públicos e privados brasileiros, o Ministério da Saúde e a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) lançaram no início de abril o “Programa Nacional de Segurança do Paciente”. A política obriga os serviços de saúde a criar Núcleos de Segurança do Paciente, que deverão aplicar e fiscalizar regras sanitárias e protocolos de atendimento para evitar erros. Outra exigência é a notificação mensal de eventos adversos no site da Anvisa. Os hospitais que descumprirem a determinação poderão até perder o alvará de funcionamento. As regras começam a valer em agosto.

Se os hospitais já tivessem um programa obrigatório de segurança em 2010, Stephanie dos Santos Teixeira, então com 12 anos, teria mais chances de escapar de um erro que lhe custou a vida. Em dezembro daquele ano, a menina era atendida no Hospital São Luiz Gonzaga, em São Paulo, quando recebeu 50 ml de vaselina líquida na veia, em vez de soro. Em depoimento à polícia, a auxiliar de enfermagem responsável pelo atendimento admitiu a troca dos frascos. O advogado da mulher disse na ocasião que ela foi “induzida ao erro”, porque os recipientes com vaselina e soro eram iguais. Em 2011, o processo contra a auxiliar foi suspenso e a Justiça determinou que a profissional prestasse serviços comunitários a uma instituição beneficente por 2 anos.
Logo após o episódio, a Santa Casa anunciou que frascos de medicamentos teriam rótulos e etiquetas diferenciadas em todos os 39 hospitais que fazem parte da Irmandade.


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