Pular para o conteúdo principal

Quando o câncer desaparece sem tratamento


Elevado número de casos de pessoas com tumores pequenos que passaram por cirurgias e tratamentos desnecessários levam cientistas a questionarem a necessidade de exames preventivos e a frequência com que eles são feitos

Laura Lopes

Diagnósticos de câncer costumam ser devastadores: para o paciente, vítima de uma doença hermética e de evolução pouco previsível, e familiares e amigos, que se sentem na iminência de um sofrimento prolongado e doloroso. Nunca sabem quando irá acabar, nem se acabará bem ou mal. Mas alguns cânceres podem sumir sem tratamento, milagrosamente. A visão de que eles só se agravam foi questionada num trabalho publicado no Journal of the American Medical Association.

A pesquisa teve como objeto de estudo 20 anos em que foram feitos exames de deteccção de câncer de mama e próstata. Tais exames identificaram tumores malignos, que se não fossem tratados, seriam letais. Mas também descobriram tumores pequenos que poderiam conviver com seu dono pacificamente e desapercebidos. Nestes casos, segundo reportagem do New York Times, estavam destinados a parar de crescer, encolher e até mesmo desaparecer, sem submeter o paciente a tratamentos ou cirurgias de grande impacto, na maioria das vezes, negativo.

De acordo com Thea Tlsty, da Universidade da Califórnia, autópsias de pessoas que morreram em idade avançada mostraram que várias delas possuíam células cancerosas ou pré-cancerosas. No entanto, não apresentavam tumores grandes ou qualquer sintoma de câncer. Esse tipo de célula é comum em idosos e nem por isso eles sofrem da doença. O mesmo pode acontecer aos mais jovens.

Antigamente, pensava-se que um câncer nascia apenas da rápida multiplicação de mutações celulares. Na visão de Barnett Kramer, dos National Institutes of Health dos Estados Unidos, um tumor precisa mais do que mutações para crescer. Para se tornar um câncer agressivo, é preciso da cooperação do ambiente em que se desenvolve e, em certo casos, de todo o organismo da vítima e de um sistema imunológico pouco combativo. Sem isso, podem desaparecer sozinhos. O que não significa que todos hajam dessa maneira, muito menos que os casos avançados da doença possam retroceder sem intervenção médica. O que se debate agora é a necessidade e a frequência de exames preventivos.

Novos caminhos

Na segunda-feira (16), o US Preventive Services Task Force, grupo ligado ao governo americano, publicou no Annals of Internal Medicine novas diretrizes para a prevenção de câncer de mama. As mulheres que não estão no grupo de risco (leia mais abaixo) devem começar a fazer mamografias periódicas aos 50 anos, e não mais aos 40, como era recomendado. A frequência também foi diminuída de um para dois anos. Os autores do artigo pretendem evitar o excesso de exames e o número de resultados falsos positivos. Uma simpes biópsia pode causar extrema ansiedade na paciente. Além disso, mamografias podem encontrar cânceres que crescem tão devagar que nunca seriam percebidos e, mesmo assim, podem resultar em tratamentos desnecessários.

De acordo com o estudo, a mamografia reduz a mortalidade por câncer de mama em 15%. Entre as mulheres de 40 a 49 anos, uma vida a cada 1.904 é salva. Quando se compara mulheres entre 50 e 74 anos, a prevenção é mais competente: uma a cada 1.339 mulheres são salvas. Na faixa de 60 a 69 anos, esse número avança para uma a cada 377. Para os pesquisadores, a mamografia torna-se desnecessária para mulheres abaixo dos 50 anos, e que não estão no grupo de risco. A incidência de câncer de mama no Brasil no ano passado foi de 59,71 casos a cada 100 mil mulheres.

Fatores de risco

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), a história familiar é um importante fator de risco para o câncer de mama, principalmente se um ou mais parentes de primeiro grau (mãe ou irmã) foram vítimas da doença antes dos 50 anos. Esse tipo de câncer corresponde a cerca de 10% dos casos. O avanço da idade também é importante. Menstruação precoce, menopausa tardia (depois dos 50 anos), primeira gravidez após os 30 e não ter tido filhos são outros fatores. A ingestão regular de álcool, mesmo que em quantidade moderada, é identificada como fator de risco, assim como a exposição a radiações ionizantes em idade inferior a 35 anos.



Fonte: Revista Época

Comentários